
Eu sou aquela que nem liga, completamente alheia a tudo, não estou nem ai, de repente sinto a opressão em mim mesma, sinto meu peito se dilacerando, sinto aquela fome feminina no meu útero, sinto meu corpo latejar, sinto o meu sangue correndo direto para as pontas dos meus dedos, quando sinto que estou perdendo as esperanças no ideal que eu imagino, que eu acredito e sinto como se já tivesse vivido, e então nesse momento eu recupero minha esperança escrevendo, tentando esclarecer o que sinto, o que penso, onde quero chegar, como estou fazendo agora. Meu papel na arte é minha ingenuidade, meu amor juvenil, misturado com um sangue que jorra do meu sexo, uma fertilidade constante e uma menstruação constante, eu não tenho cicatrizes nem feridas, eu uso os lugares corretos pra evacuar esse sangue que eu nego. Eu me apego a tradição para me destruir por dentro, provar me destruir e me reconstruir, meu coração é uma sala inglesa com objetos caríssimos que vou quebrando, todos os dias me embebedo me drogo de amor esbarro quebro um bibelô e grito - CLEUSA! você quebrou o vaso que o Luis Carlos trouxe da CHINA! - todos os dias faço igual, experimentando uma realidade nojenta, todos os dias me arrebento por dentro com a delicadeza de um acidente fingido para crescer sobre outras bases, para crescer sobre o meu coração que coração que desconheço - eu fico me sujando de arroz e feijão e gosto de sentir meu cabelo sujo e gosto de beber whisky pra ver se viro alcóolatra de uma vez, mas não tenho coragem nem disso. Meu coração é minha arte, é uma sala inglesa foi revestido com um papel de parede bem rococó, em um rasgo é possível ver sangue brotar, gatas perambulam por ele, cada uma carrega uma voz, Ana C., Sylvia Plath, Doris Lessing, poltronas confortáveis, divãs, objetos bonitos, poesias pela metade riscadas em papéis avulsos em cima de uma escrivaninha de madeira, o som do fogo da lareira misturado a um punk rock sujo, um cigarro largado aceso no cinzeiro, sempre um aceso e eu não fumo e esse é meu coração Meu papel na arte é não acreditar na arte - é quebrar cada traço ridiculo de linha e me ver chorar - essa era a linha que a Denise Marie trouxe da frança - céus, essa era a linha que o Charles trouxe do egito.... cada quebra eu me tranco no armário e jorro palavras pela fenda, jorro meu ódio, meu sangue, minha ingenuidade, eu não quero ter poder nenhum nem sobre meu próprio ser - eu nasci no poder e o poder tem cheiro de "sweet almond" com torta de pecan, whisky e helicóptero chanel 5 cheiro quente de secador e das mãos da Otília secando meus rolinhos de cachos loiros e passando mousse pra inauguração da decadência - e a decadência tem cheiro de "sweet almond" com torta de pecan, whisky, e helicóptero chanel 5 cheiro quente do secador nas mãos da Otília secando meu cabelo duro e armado pintado com uma tinta barata. Meu papel na arte é ir escrevendo qualquer merda e gritando e querendo gritar a merda do que sou e com o ódio-amor que tenho pela minha teogonia - ao ver que a deusa da riqueza é filha da guerra ver que o deus da cultura é filho da indústria ver que a liberdade corrompida é filha da escravidão com a anarquia que o poeta vendido é filho da riqueza e da cultura e eu - filha da liberdade corrompida e do poeta vendido - o que serei eu? neta da riqueza, do senhor da cultura e das máscaras neta da escravidão e da anarquia? QUE bosta serei eu? filha da liberdade corrompida e do poeta vendido - eu seguro meus sonhos na ponta de uma caneta tinteiro. seguro meus sonhos em um coração de porcelana. meu papel na arte é cuidar para que a realidade saia pingando e não exploda e não suja meu corpo, enquanto isso explodo por dentro e penso em ir embora de mim - e negar toda a história e mentir. e dizer que tá tudo bem - que é tudo bem - que eu acredito no grande sonho - meu papel na arte é entender como eu crio a minha própria realidade pra então criar no mundo. meu papel na arte é não acreditar na arte é te dizer olha vem cá - eu sei exatamente os materiais que eu tenho que usar e a estética que eu escolho pra fazermos uma obra lindíssima - a estética é a estética do sangue e da dor - a estética é a estética da mulher - da máscara da cultura da maquiagem do dinheiro do sangue e da dor - essa é a minha estética a estética do meu coração - meu coração é uma sala inglesa revestida por um papel de parede bem rococó os roqueiros gritando sangue noszóio. AMOR de criança e torta de pecan. meu papel na arte poderia ser levar a arte para todos, meu papel na arte poderia ser as crianças e sua espontaneidade pra que eu entenda esse monte de merda que sai dentro de mim, a mesma merda que já exalava quando eu só podia gritar berrar e chorar e cagar - meu papel na arte poderia ser - mãe - ser mãe. Mas hoje meu papel na arte é ser criança birrenta e ser eu mesma - mimada e criança birrenta e PUTA. bem PUTA. e bem descrente mas bem crente no poder do meu processo criativo - bem crente de que cada palavra que eu escrevo reverbera, cada palavra que eu grito reverbera, então o poder está com todos e não está com ninguém.
Eu quero dizer que eu não sei o que dizer que eu não sei o que eu posso dizer enquanto eu não souber quem eu sou, enquanto eu não admitir o que sou, enquanto eu não fizer uma escolha - posso ser o que eu quiser ser, e posso dizer tudo o que eu quiser dizer - por enquanto eu quero dizer - fique atento porque o caminho não está em você ele está em volta de você. nas circunstâncias que você não escolhe, nas suas amizades impessoais. Eu quero dizer por favor se cale e ouça o que eu to falando - cada um tem um caminho - cada um enlouquece ao tomar consciência desse caminho - enlouquecer não é fracassar o fracasso não existe. o sucesso também não existe - à escuta, diria meu amor - ao sucesso, diria meu censor. nosso sucesso não vem com a gente, nosso sucesso não vem com a gente. nosso fracasso vem incrustado dentro de nós como algo que precisamos atingir a todo custo APLAUSOS você quer aplausos? Você sabe receber aplausos? Então você já os recebeu. Você sabe aplaudir na hora certa? Então tá na hora de aprender. Tudo o que é uma obsessão não é são. VAI SE FUDER. VER. VAI ESCUTAR. quem?
EU escuto você! E leio! Dê, to sentindo que a gente tá num vômito criativo juntas. Amanhã ou hj mesmo escreverei um texto em resposta ao seu.
ResponderExcluirAmei. Estou sem palavras, pq ainda estou digerindo. Mas eu amei. É doce e forte e tem pontos que me identifiquei. Preciso ler de novo. Fazer a digestão. Ou só ler e responder numa congestão.